Texto de Gabriel Villatore Bigardi

Quando em 1947, A Peste, de Albert Camus, foi publicada, o mundo acabava de sair do maior conflito armado da história mundial. Estima-se que entre 70 e 85 milhões de vidas tenham sido tiradas, direta ou indiretamente, durante a Segunda Guerra Mundial. A Peste Negra, por sua vez, que durou de 1346 a 1353, foi considerada a mais fatal pandemia da história, ceifando entre 70 e 200 milhões de vidas na região da Afro-Eurasia durante a Idade Média, segundo as estimativas. Acredita-se que de 30% a 60% da população da Europa pereceu durante o período. A Morte era, portanto, a divindade soberana da representação do mundo da época.

Camus, através de uma metáfora sobre tais eventos, situada desta vez em Orã, cidade costeira e segunda maior da Argélia, país natal do autor, no Norte da África, lança-nos frente à Morte em meio a esta narrativa. A epidemia que pouco a pouco levará as personagens ao extremo de suas condições de humanidade, enclausuradas sob um verdadeiro estado de sítio, faz-nos deparar não tanto sobre a impossibilidade de vencer a Morte em face a um desastre, natural ou não, mas sobretudo perante a ética e a postura que tal emergência faz nascer no coração dos homens. Bernard Rieux, o protagonista, não por acaso é um médico, que sob a profunda lucidez de Camus na narrativa, torna-se o responsável por diagnosticar a época em que, mais uma vez, conforme um aparente ciclo histórico, a humanidade se viu prestes a ser destruída. A Morte dos entes, o fechamento das fronteiras, a distância entre as pessoas, a iminência do fim, nada disso deveria ser o suficiente para arrefecer a esperança e a solidariedade para com nossos iguais. Essa seria a lição de Rieux.

O que o romance elucida, entretanto, e o que se inscreve na realidade atual podem ser histórias bastantes diferentes. Desde março de 2020, o mundo enfrenta uma epidemia mundial que conta com mais de 185 milhões de casos e, segundo os dados oficiais, cerca de 4 milhões de mortes até julho de 2021. Dados não-oficiais, entretanto, estimam esse número de mortes entre 2 a 4 vezes maior, isto é, entre 7 a 13 milhões de vítimas fatais. Apenas no Brasil, até o momento, o número de casos estaria em cerca de 19 milhões, e o número de mortes já ultrapassa os 500 mil. Frente à recorrente incapacidade das autoridades governamentais de medidas apropriadas para conter a epidemia, tal situação não parece ainda tão próxima de chegar ao fim. Se, para além dos números, considerar-se em cada estimativa também uma história de vida que terminou bruscamente, sequelas emocionais e entes que se perderam, seria impossível tratar do assunto de forma leviana.

Aquilo que resta são, portanto, perguntas. Compreendemos em algum momento a lição de Rieux? A pandemia realmente nos ensinou algo sobre nossa condição, ou apenas passaremos por mais esse período para, dentro de poucos anos, reiniciar nosso ciclo de autodestruição, apenas sob uma diferente modalidade? A solidariedade realmente venceu em um país onde problemas sociais tão alarmantes, tal como a fome, voltaram a estar em questão? A esperança realmente persistiu onde a política institucional e a ética das pessoas comuns não parecem ter se alterado de forma significante? Se aquilo que Camus vislumbrou em 1947 seria um diagnóstico, a realidade é, entretanto, uma obra que não cessa de se inscrever. Cabe a nós, entretanto, refletir a realidade e pensar as melhores formas em que ela pode continuar a ser escrita.