Texto de Reginaldo dos Santos Souza

RESUMO

Na perspectiva de compreender a lógica das mudanças ocorridas no mundo, neste momento, concentraremos nosso esforço sobre o debate do papel da educação frente aos desafios que a pandemia trouxe no que diz respeito a volta ou não das aulas presenciais. Como suporte teórico utilizaremos dois autores para fomentar que aspectos são cruciais para uma decisão deste porte, que dentro de uma ideia de “normal” envolve a movimentação de enormes contingentes de pessoas no entorno de uma escola. O texto destacará as ideias de Pierre Bourdieu e suas contribuições para que possamos refletir as questões que fomentam os mecanismos direcionais do processo educacional diante da pandemia que assola o mundo. O objetivo central será avaliar questões intrínsecas que permeiam o debate sobre a volta das aulas presenciais. Outra grande contribuição para nossas reflexões será dada pelo filósofo francês Michel Foucault com seu conceito sobre o cuidar si como o caminho para os indivíduos conquistarem a liberdade. As questões apresentadas nos mostraram que o debate da volta as aulas presenciais estão sujeitas a visões parciais da realidade, pois foca toda tomada de decisão na demanda econômica, que foge da necessidade aqui apresentada pelos autores da percepção do sujeito e o objeto, na perspectiva de Bourdieu e da necessidade do cuidar de si, de Foucault, para que a escolha passe pela ética da liberdade.

INTRODUÇÃO

            As dinâmicas do mundo contemporâneo, e em especial, na atualidade pandêmica, nos faz refletir sobre muitos aspectos importantes para a vida humana. Reaprender e resignificar ações e atitudes estão na ordem do dia. Contudo, as forças que regem o mundo tentam atropelar o tempo necessário para que aja a assimilação necessária dos indivíduos as novas ordens estabelecidas pelas circunstâncias postas. Uma força específica tenta se impor de uma forma cada vez impactante: a força econômica, ou seja, representada pelo mercado. Dentro deste princípio, no atual momento de pandemia que assola o mundo, alguns governos, diga o brasileiro em especial, direcionam seus discursos focando na economia como algo prioritário, afirmam que, mais do que as mortes causadas pela pandemia as mortes de CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas) serão mais devastadoras, pois trarão mais mortes. Discurso este que, atrelado ao negacionismo científico, presente de alguns governantes, dão pouca importância ao impacto sanitário que a pandemia trouxe para todos os países do mundo.

            O cenário pandêmico traz outros temas também relevantes para o debate das ações que deverão ser planejadas pelos governantes. Destacaremos neste texto algumas reflexões sobre o debate da educação frente aos desafios que a pandemia trouxe, ou seja, a contenção de aglomerações humanas como pré-requisito fundamental para o controle da disseminação do vírus, e consequentemente, da contaminação dos indivíduos. Assim, o grande desafio que se coloca para a educação no momento é:  o retorno ou não das aulas presenciais.

            Decidir sobre como agir neste momento nos remete a construir argumentos pautados em teóricos que possam contribuir paras as reflexões necessárias sobre o tema. Assim utilizaremos dois autores para fomentar quais aspectos são cruciais para uma decisão deste porte, que dentro de uma ideia de “normal” envolve a movimentação de enormes contingentes de pessoas no entorno de uma escola.

            O texto passará pelo campo especifico relacionado educação, tendo como referencial o sociólogo francês, Pierre Bourdieu. Suas contribuições nos ajudarão refletir sobre as questões que fomentam os mecanismos direcionais do processo educacional, em especial, diante da pandemia que assola o mundo. Dessa maneira, podermos pautar aspectos importantes para o debate proposto.

Corroborando com as ideias de Bourdieu buscaremos no conceito de cuidar de si de Michel Foucault, um percurso para a compreensão dos desafios de uma volta as aulas de forma precipitada, ou seja, sem que ocorra um controle maior da pandemia. A contribuição de Foucault estará no desenvolvimento teórico, que nos ensina que o cuidar de si dará aos indivíduos os pressupostos da liberdade.

Antes, torna se necessário uma breve apresentação dos autores: Pierre Bourdieu, teórico francês da contemporaneidade, muito contribuiu para as reflexões acerca do papel da educação como agente de transformação da realidade social.  Bourdieu desenvolveu, a partir da década de 1960, uma resposta teórica e empírica, para o problema das desigualdades escolares. Derruba a ideia predominante do XX, que colocava a escola como um centro reparador das desigualdades sociais. Nega a ideia de que a escola pública garantiria a igualdade de oportunidades para todos os membros da sociedade, que a competição no sistema de ensino, se daria em condições de propiciar mobilidade social, pois o que estava em jogo era o desenvolvimento dos dons individuais. Michel Foucault (1926-1984, filosofo francês, que exerceu grande influência sobre os intelectuais contemporâneos. Ficou conhecido por suas posições contrárias ao sistema prisional tradicional. Não escreveu muito sobre educação, especificamente, mas compreendeu como o processo educacional estava ligado as estruturas da sociedade burguesa. Ou seja, que o ensino nesta sociedade se focava na reprodução e renovação dos valores desta sociedade.

O viés da teoria destes dois autores nos guiará na análise do debate proposto, da volta ou não das aulas em tempos de pandemia. Nosso raciocínio se guiará pela seguinte questão: O debate sobre a volta das aulas presenciais se dá por motivos especificamente pedagógicos, ou pela necessidade de dar respostas as pressões do campo econômico que se estabelece ao entorno da educação brasileira? É certo que para responder está questão e outras, que de forma secundária se ligariam a ela, seria necessário um trabalho mais complexo e uma pesquisa ampla. Aqui faremos uma pequena reflexão sobre a ideia de objetivação participante, de Bourdieu e o cuidar de si, de Foucault, para lançarmos pontos de reflexões que serão importantes para o debate que está posto na sociedade.

BOURDIEU: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A ESCOLA E A OBJETIVAÇÃO PARTICIPANTE

            Nesta parte nos apoiaremos na ideia sobre a escola apresentada por Pierre Bourdieu, já exposta acima, que se concentra no momento em que faz uma releitura sobre o que a educação representava para a população francesa, em especial os que viam na escola o grande trampolim de mobilidade social. Este período se dá no pós anos 1960. Aspecto este que baliza o nosso debate central, pois evidencia o papel da escola como uma agente de transformação ou de reprodução do status quo da sociedade.

Assim, segundo Bourdieu (1998), após essa década, a concepção da escola como um forte elemento de mobilidade, começa a ser questionado. Nogueira (2010, p. 2):

O que ocorre nos anos 60 é uma crise profunda dessa concepção de escola e uma reinterpretação radical do papel dos sistemas de ensino na sociedade. Abandona-se o otimismo das décadas anteriores em favor de uma postura bem mais pessimista. Pelo menos dois movimentos principais parecem estar associados a essa transformação do olhar sobre a educação.

A educação, ou seja, a escola, não representa para Bourdieu a partir de então um local que pudesse dar aos indivíduos a capacidade de ascensão social, pois ela apenas reproduz as condições dadas para a dominação de uma classe sobre outra. Esta percepção de construída frente há dois momentos que evidenciaram o fracasso dessa visão do sistema escolar como elemento fundamental para a mobilidade social. Vejamos, Nogueira (2010, p. 2):

Em primeiro lugar, tem-se, a partir do final dos anos 50, a divulgação de uma série de grandes pesquisas quantitativas patrocinadas pelos governos inglês, americano e francês (Aritmética Política inglesa, Relatório Coleman – EUA, Estudos do INED – França) que, em resumo, mostraram, de forma clara, o peso da origem social sobre os destinos escolares. É que foram interpretados como indicadores de deficiências passageiras do sistema de ensino que poderiam ser superadas com maiores investimentos – contribuíram para minar, a médio prazo, a confiança na tão propalada igualdade de oportunidades diante da escola. A partir deles, tornou-se imperativo reconhecer que o desempenho escolar não dependia, tão simplesmente, dos dons individuais, mas da origem social dos alunos (classe, etnia, sexo, local de moradia, entre outros). Em segundo lugar, a mudança no olhar sobre a educação nos anos 60 está relacionada a certos efeitos inesperados da massificação do ensino.

Essa geração, arregimentada em setores mais amplos do que os das tradicionais elites escolarizadas, vê – em parte, pela desvalorização dos títulos escolares que acompanhou a massificação do ensino –  frustradas suas expectativas de mobilidade social através da escola. A decepção desta “geração enganada”, como diz Bourdieu apud Nogueira (2010, p. 3) alimentou uma crítica feroz ao sistema educacional.

Onde se via igualdade de oportunidades, meritocracia, justiça social, Bourdieu passa a ver reprodução e legitimação das desigualdades sociais. A educação, na teoria de Bourdieu, perde o papel que lhe fora atribuído de instância transformadora e democratizadora das sociedades e passa a ser vista como uma das principais instituições por meio da qual se mantêm e se legitimam os privilégios sociais. Trata-se, portanto, de uma inversão total de perspectiva.

Apesar de Bourdieu, seguir uma linha próxima a Émile Durkheim, podemos dizer que, o conhecimento do ‘habitus’ do indivíduo contribui para a percepção da sua realidade e, partir daí, dá suporte para o processo educacional propiciar ao sujeito a real percepção de sua condição social. Que possibilita dar ao indivíduo o poder de orientação para uma emancipação frente ao processo ideológico das diretrizes educacionais preparadas com o objetivo da manutenção do status quo da classe dominante. Nogueira (2010, p.14):

[…] na perspectiva de Bourdieu, quando relacionados ao sistema das relações entre as classes. A escola não seria uma instância neutra que transmitiria uma forma de conhecimento intrinsecamente superior e que avaliaria os alunos a partir de critérios universalistas, mas, ao contrário, seria uma instituição a serviço da reprodução e legitimação da dominação exercida pelas classes dominantes.

A escola a não levar em conta o habitus dos indivíduos cria um processo em que a educação formal, que se dá através da escola, para Bourdieu, comete uma violência simbólica aos indivíduos, pois busca um processo de ensino aprendizagem que não leva em consideração o ‘capital cultural’ dos indivíduos e, impõe a estes, um modo de vida de uma elite que governa e determina todas as diretrizes educacionais vigente, com o objetivo claro de manter a sua posição social garantida. Assim, pensar a educação sobressai a ideia de um debate raso sobre as presenciais ou não, pois quais os condicionantes que a escola está oferecendo aos indivíduos para a conquista de sua emancipação.

OBJETIVAÇÃO PARTICIPANTE

O debate que pautaremos a seguir tem como objetivo enfatizar um conceito importante das prerrogativas teórica metodológica de Bourdieu, a objetivação participante, que nos ajudará a compreender e nos posicionar o que pode estar intrínseco nas decisões de voltar as aulas em tempos de pandemia. Ao ressaltarmos como Bourdieu analisa a escola, pós década de 1960 do século XX, abriremos caminhos para compreendermos como seus argumentos teóricos metodológicos podem fornecer uma leitura atenta do momento e da análise proposta. Já que percebermos que se construíra uma relação sujeito e objeto que não haverá um desdobramento da consciência, vejamos:

Colocar o pensamento no lugar que os agentes pesquisados ocupam no mundo social tem diferentes efeitos conforme o grau de pertencimento ou de distanciamento do pesquisador com relação a esse mundo e aos lugares em questão. Por isso, nunca será demais repetir que a objetivação do sujeito objetivante, enquanto objetivação participante, é um dos mais delicados problemas metodológicos que o trabalho científico impõe aos que se aventuram a ocupar espaços no campo educacional, além do espaço de pesquisador (COSTA, 2019:88)

Bourdieu (2017), faz uma diferenciação entre a observação participante e a objetivação participante com o propósito de situar a relação do sujeito e do objeto na pesquisa. Para Bourdieu (2017) a observação participante se dá pela imersão em um contexto social estranho ao do pesquisador cria um desdobramento da sua consciência, assim estabelece a dicotomia: sujeito e objeto. Está dicotomia fará com que o pesquisador nunca poderá alcançar o assunto da observação e, assim, será apenas um pesquisador (investigador). Neste contexto, pensar a volta as aulas em plena pandemia nos faz pensar que o formulador de tal proposta necessita se situar numa relação de sujeito e objeto para não ocorrer uma imersão ao fato sem de fato se posicionar como sujeito de observação e apenas como um investigador. Assim, poderá inserir nas suas próprias experiências para guiar suas tomadas de decisões. O que o levará a fortalecer o modus operandi da reprodução tão combatida por Bourdieu.

Já na objetivação participante Bourdieu diz que:

o que realmente deve ser compreendido é o objeto de objetivação, – neste caso, eu mesmo, – e a sua posição nesse espaço social relativamente autônomo que é o mundo acadêmico, dotado de suas próprias regras, irredutíveis para aqueles do mundo circundante, e de seus pontos de vista singulares. Mas que, muitas vezes, se esquece ou ignora que um ponto de vista é, estritamente, nada além do que uma visão tirada de um ponto que não pode se revelar como tal, e que não pode revelar sua verdade como ponto de vista: um ponto de vista particular e, finalmente, único, irredutível para os outros, a espaço, menos que seja capaz, paradoxalmente, de reconstruir o em que está inserido. (BOURDIEU, 2017: 76).

Apresenta a objetivação participante como uma técnica de investigação, um dispositivo metodológico distinto da observação participante. Neste processo o pesquisador deve fazer constante referências as suas próprias experiências, ter como objeto real os seus efeitos cognitivos e considerar suas experiências sociais como objeto, ou seja, mobilização da própria experiência em todos os atos de investigação.

Vejamos o que diz Bourdieu:

a objetivação científica não é completa, a menos que inclua o ponto de vista do objetivador e os interesses que ele possa ter em objetivação: em especial, quando ele objetiva o seu próprio universo. Mas, também, em relação ao inconsciente histórico que ele inevitavelmente envolve em seu trabalho. […] antropólogo que não conhece a si mesmo, que não tem um conhecimento adequado de sua própria experiência primária do mundo, coloca o primitivo à distância porque não reconhece o pensamento primitivo e pré-lógico dentro de si mesmo. Fecha-se, assim, em uma visão escolástica e, portanto, intelectualista, de sua própria prática, e não pode reconhecer a lógica universal da prática nos modos de pensamento e ação (tal como mágicos) que ele descreve como pré-lógico ou primitivo.(BOURDIEU, 2017: 77-79)

            A questão central está em quem defende o retorno precisaria estar inserido na perspectiva do objeto e fazer referências as suas experiências dentro do contexto educacional a ser detalhado para uma tomada de decisão sobre a volta ou não das aulas presenciais. Ou seja, o conhecimento da realidade vivenciada por toda comunidade é de fundamental importância para que esta tomada de decisão busque se apoiar deste os aspectos pedagógicos aos aspectos estruturais; do cognitivo ao físico.

            No próximo tópico falaremos um pouco sobre como Foucault pode também nos ajudar para a reflexão final do trabalho que se dá na necessidade olhar para este objeto com o rigor metodológico necessário.

FOUCAULT: EDUCAÇÃO, A ÉTICA DA LIBERDADE E O CUIDAR DE SI

Foucault apud Gabriel; Pereira (2018), não focou seus estudos especificamente sobre o tema educação, contudo seu legado teórico pode de ser dar caminhos importantes para que possamos entender como a educação se caracteriza no seu pensamento e deixa claro que ao vivenciar sua experiência docente percebe que a educação se dá na organização da reprodução da sociedade burguesa. Vejamos sua afirmação a respeito do processo educacional francês quando se refere a percepção que tanto professores quanto estudantes entendem que estão ligados a reprodução da sociedade burguesa.

[…] apesar dessa descoberta, eles não captaram o que poderia significar o fato de dispensar e de receber um ensino no seio dessa sociedade, e não compreenderam que esse ensino, no fundo, não era nada além da renovação e reprodução dos valores e dos conhecimentos da sociedade burguesa. (FOUCAULT, 1999, p. 234)

Neste aspecto se aproxima a ideia de Bourdieu de que a educação é um processo de reprodução de valores da sociedade burguesa. Assim, torna-se necessário a compreensão deste processo educacional e a partir deste aspecto criar mecanismos que possam quebrar com a educação reprodutora, pois esta articulação precisa ser rompida. Contudo, este rompimento pode ser ligado a ética da liberdade.

A busca da liberdade se fundamenta no princípio do entendimento do sujeito por si mesmo. Para Foucault (2004), o sujeito é afetado na sua subjetividade numa dominação invisível que causa constrangimento, que instauram forças que passam pelo próprio sujeito. Assim, torna-se importante que o sujeito entenda a si próprio como um conjunto de forças que precisa conhecer para criar o poder sobre si. E a partir dai se tornar livre, pois poderá dirigir a sua vida. Ou seja, as forças ativas, que estão no sujeito, dominarem as forças as forças reativas. Ainda de acordo com Foucault (2004), a filosofia não sugeri as pessoas o que elas devem fazer, o que devem pensar, o que devem crer e pensar, mas sim, ajuda-las a reconhecer os mecanismos sociais que atuam como formas de repressão e constrangimento e, a partir disto dar as pessoas a possibilidade de se determinar, de fazer, sabendo de tudo isso, a escolha de sua existência.

Assim, Foucault (2004) nos apresenta a conceito do cuidar de si. Conceito este que contribui muito para a nossa proposta de reflexão sobre a volta das aulas na pandemia, pois nos coloca diante da necessidade de pensar o eu dentro da coletividade e como esta correlação poder ser fundamental para as tomadas de decisões. Para Foucault (2004), o cuidado de si é constituído, no mundo greco-romano, como o modo pelo qual a liberdade individual ou a cívica foi pensada como ética. Este cuidado de si visa o bem dos outros, pois não pode ser um cuidado exagerado a si mesmo, que poderia negligenciar os outros ou até mesmo abusar do poder que se pode exercer sobre eles. Liberte-te a si mesmo para evitar abusos e toda forma de dominação.

Dentro deste processo do cuidado si, Foucault (2004), nos mostra que toda vez que eu liberto a mim corroboro para a criação de um processo de libertação. Ressalta ainda que, quanto mais liberdade se tem mais jogos de poder haverá. Para finalizar podemos reforçar como este cuidar de si e a sua articulação com a liberdade está relacionado com o que chamou de nova ética:

Tratar-se-ia de tentar jogar com o mínimo de dominação… – Acredito que este é efetivamente o ponto de articulação entre a preocupação ética e a luta política pelo respeito dos direitos, entre a reflexão crítica contra as técnicas abusivas de governo e a investigação ética que permite instituir a liberdade individual. (FOUCAULT, 20041: 13)

O cuidar de si de Foucault nos dá elementos para pensarmos o que significa estabelecer um debate de volta as aulas presenciais em plena pandemia, pois para cuidar dos outros é necessário que se cuide si e entender como acelerar este processo pode ser algo que não ofereça ao indivíduo a possibilidade de cuidar si para assim ter a liberdade de se relacionar de forma consensual ou não com esta situação.

 Assim, correlacionar estes dois autores, nas suas respectivas teorias, nos ajuda demonstrar que este debate se assessora as pressões do campo econômico, que joga a responsabilidade do controle ao sujeitos do processo educacional, sem levar em consideração como a estrutura física, social e individual pode ser crucial neste momento, no que diz respeito a segurança de se colocar vidas em risco para atender demandas que vão além do discurso da escola como algo fundamental na formação dos indivíduos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O caminho apresentado pelo texto faz ressalva a compreendermos que a decisão da volta ou não das aulas presenciais estão atreladas a um debate que não busca fomentar a vida dos indivíduos como elemento central da tomada de decisão. O que pesa como ponto relevante é a dinâmica das relações econômicas, que atrelam o campo da educação numa forte intersecção com o campo econômico.

Portanto, ao buscarmos as concepções de Bourdieu sobre a educação foi importante para fazermos a relação dos dois campos e perceber com a educação está vinculada ao campo econômico.

Assim, de acordo com o conceito de Bourdieu dentro do que apresentamos sobre a objetivação participante pensar em voltas as aulas presenciais neste momento só acontece porque o formulador desta proposta não conseguiu estabelecer uma relação de sujeito e objeto que transcende a formalidade de um mero investigador do assunto.

O retorno as aulas presenciais, nesta perspectiva só poderia estar validada se as experiências dos formuladores de tal proposta colocassem de maneira clara sua relação subjetiva com o objeto.

            Junta-se a esse debate a teoria do cuidar de si de Michel Foucault, que estabelece o princípio que, primeiramente o cuidar de si que garantirá o cuidar do outro e assim, permitir que se crie um processo de liberdade. Ou seja, o processo do cuidado si, de mostra que toda vez que eu liberto a mim corroboro para o processo de libertação, que garantirá a compreensão das necessidades diante dos condicionantes que nos são postos.

            Dessa forma, as questões apresentadas ajudam a responder à pergunta inicial afirmando que todo este debate da volta as aulas presenciais estão sim sujeitas a visões parciais da realidade, pois foca toda tomada de decisão na demanda econômica, que foge da necessidade aqui apresentada pelos autores da percepção do sujeito e o objeto, na perspectiva de Bourdieu e da necessidade do cuidar de si, de Foucault, para que a escolha passe pela ética da liberdade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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