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Simone Beauvoir – O outro sexo

19 / 10 / 2021 | Publicações

Simone de Beauvoir foi uma filósofa, ativista política e feminista do século XX. Sua principal obra é O Segundo sexo (1949), onde realiza uma extensa investigação sobre a situação da mulher, a partir de textos filosóficos, políticos, sociológicos e literários. Apresenta fatos e narrativas presentes e passadas para mostrar que a compreensão do que é “mulher” é produzida no tempo através de circunstâncias sociais e históricas; Beauvoir mostra como a mulher foi historicamente construída em oposição ao homem como o Outro, o negativo, o insuficiente natural. Analisa como entre homens e mulheres constitui-se uma relação de alteridade e de ausência de reciprocidade que, para ela, deve dar lugar ao conceito de libertação ao alcançar-se o reconhecimento recíproco entre ambos.

Beauvoir, como dito anteriormente, diz que a mulher é entendida como o Segundo, isto é, o Outro. Esse Outro de Beauvoir distingue-se do Outro de Sartre. Para ela, as situações sociais modificam a própria liberdade, assim, quando há o encontro com o Outro, através da mediação das instituições que privilegiam uma das partes, estabelece-se uma designação involuntária das posições de sujeito e objeto. Com isso, determina-se a ausência de reciprocidade entre homens e mulheres, a qual exclui a possibilidade de liberdades ontologicamente iguais no que se refere à capacidade de reagir à reificação. Assim, quando a mulher entendida como desigual encontra-se com o Outro, espelha sua desigualdade que é socialmente construída, quer dizer, uma construção social situada na concretude do corpo feminino.

Ademais, Beauvoir acrescenta ao Segundo sexo a condição de uma subjetividade corporificada, onde o corpo mantém uma relação de estar ao mesmo tempo sujeito à natureza e à cultura, dessa forma, diz que “não é enquanto corpo, mas enquanto corpo submetido a tabus, a leis, que o sujeito toma consciência de si mesmo e se realiza”. (BEAUVOIR, 1980, v.1, p.56). Apoiada em Merleau-Ponty, Beauvoir diz que esse corpo submetido não é algo que o sujeito possua, mas o que ele é. O corpo é essencial na medida em que desenha nossa perspectiva de mundo, não deixando de estar em uma relação dialética com seu contexto. Para Beauvoir, o caminho de libertação se dá no sentido de mudanças constitucionais, institucionais, econômicas e profissionais das mulheres, que só são possíveis mediante ação coletiva, e na medida em que emancipa as mulheres, emancipará, também, os homens. Para ela, precisamos reconhecer nossa condição de sujeito e objeto, para depois conseguir reconhecer o Outro, não de forma narcisista espelhando-se como em Sartre, mas de forma livre de manipulações e julgamentos. Beauvoir entende isso como construir o mundo em co-autoria, onde a partir do reconhecimento surge uma reciprocidade igualitária entre homens e mulheres.

Assim, ao articular a ação coletiva, Beauvoir supõe uma renúncia do narcisismo e assume o agir como responsabilidade essencial. A publicação de O segundo sexo não teve uma resposta pública das melhores. Ofensas que variam de “neurótica” a “frustrada” e “amargurada” não faltaram, e o interessante é perceber que isso pode mesmo ser explicado por meio da própria tese da autora sobre a condição da mulher – que não era ainda coisa bem aceita. Afinal, não é infundado que Beauvoir seja um marco feminista tão memorável.

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